Sítios arqueológicos em Vinhedo: isso é verdade?

Esta é a pergunta que mais tenho escutado ou lido nas últimas semanas, desde o momento que comecei a insistir sobre a importância de (re)conhecermos nossa pré-história e de ter revelado que tenho comprovações sobre a existência de sítios arqueológicos em nosso município.

No livro “Vinhedo: das aldeias indígenas aos condomínios fechados” apresentei esta tese, de forma menos aprofundada, mas com consistência teórica e objetividade. No entanto, nos últimos meses, tive acesso a documentos e informações que me levaram muito mais próximo às nossas origens milenares.

Preliminarmente, devo ressaltar que a ideia de pré-história que apresento é a aquela que o professor Pedro Funari se refere como a história não escrita, ou que foi deturpada, especialmente pelos colonizadores europeus. A pré-história, neste sentido, é a busca do registo do nosso “Velho Mundo”, pouco contado pela oficialidade.

Para a arqueóloga Camila Whichers, a história do Estado de São Paulo (e portanto de seus municípios) nos foi contada por meio de documentos redigidos por membros da coroa portuguesa ou por pessoas que estavam submetidos a este sistema de poder. A arqueologia pode nos ajudar a revelar passagens importantes do nosso passado, enriquecendo a história que conhecemos.

Vinhedo tem contas a acertar com seu passado e seus habitantes têm o direito de ter acesso a esta memória coletiva. Isto pode ajudar a cidade a construir sua identidade de uma forma fidedigna, e mesmo a resolver pontos controversos e lacunas de nossa história. Objetivamente, será possível identificar, por exemplo, como e onde exatamente surgiu o município.

É preciso regatar dois aspectos fundamentais:

1 – A história dos negros, especialmente sobre as relações que se estabeleceram na Fazenda Cachoeira, na região central, e no lendário Quilombo de Rocinha, o maior e mais poderoso da história paulista, na região da Capela;

2 – A história das nações indígenas que por aqui viveram ou que por aqui passaram. Isso poderá nos ajudar a desvendar trechos importantes do enredo da história de Vinhedo.

As peças deste quebra-cabeça já estão disponíveis e outras poderão surgir com auxílio do método científico e com um mínimo de boa vontade do poder público. Dialoguei com algumas lideranças e as expectativas são positivas neste sentido. Mas, afinal, o que já se sabe a respeito de nossas remotas raízes?

Pelo que levantei até o presente momento foram encontrados em Vinhedo ao menos 5 sítios arqueológicos, sendo 4 no interior da microbacia hidrográfica dos córregos Cachoeira e Pinheirinho e um quinto no altiplano da cidade, nas proximidades do Portal.

Foram achados cerca de 3.500 fragmentos arqueológicos, implementos de pedra (mão-de-pilão, machados polidos, raspadores), entre outros objetos que remetem às culturas indígena e negra. Alguns dos objetos de uso cotidiano e outros materiais líticos encontrados não pareciam pertencer ao uso cotidiano e sim à rituais fúnebres, indicando a existência de um cemitério em um dos sítios. Outra evidência da existência do cemitério indígena foi o achado de pedaços de ossos e dentes.

Os objetos pertenceram a grupos distintos, pois foram fabricados usando mais de uma técnica. Mas, centralmente, pertenceram à tradição indígena Tupi-Guarani, que ocupou a região em épocas diferentes. Alguns utensílios mostram uma possível influência dos grupos Aruak, oriundos da Amazônia.

Estes achados, ainda que insuficientes, já são evidências concretas da confirmação de duas teses importantes que retratei em meu livro: 1: Vinhedo começou a ocupação colonial em um pouso, que anteriormente era uma aldeia e que ficava no caminho dos Goyases, possivelmente no altiplano entre o Parque Municipal Jaime Ferragut e o bairro Casa Verde; 2 – Em 1732, o comerciante Alexandre Simões mudou radicalmente a ocupação do território em uma grande jogada estratégica e levou a ocupação para a bacia do Cachoeira/Pinheirinho, com epicentro onde hoje se encontra a Fazenda Cachoeira.

Os diversos artigos e documentos relativos aos achados arqueológicos em Vinhedo, mostram que houve escavações no final dos anos 70, início dos anos 80 e em 2003. Além disso, existem vestígios arqueológicos que foram encontrados por agricultores enquanto aravam suas terras e entregues para pesquisadores e políticos.

Lamentavelmente, uma parte importante desses materiais (que quase ninguém sabia de sua existência), e se encontravam em posse do poder público, se perdeu no incêndio que ocorreu no antigo Armazém da FEPASA, em 2001. Neste episódio, o fogo também consumiu instrumentos e diversos objetos da grande Escola Carnavalesca Garganta Seca.

A boa notícia é que nem tudo está perdido. Existem peças de nossa história espalhadas em museus do estado de São Paulo e em posse de particulares. Existem também pontos da cidade que podem ser investigados, bem como documentos e relatórios que nos ajudarão a reconstituir esta jornada.

No ano em que a cidade comemora seus 70 anos de emancipação político-administrativa é fundamental que, além de comemorarmos seu aniversário, façamos uma profunda reflexão sobre nossas origens (que remetem a milhares de anos) e sobre nossos destinos, especialmente quando debatemos a revisão do Plano Diretor.

Os indígenas e os negros, praticamente apagados de nossa história, também foram fundamentais na construção desta casa comum que damos o nome de Vinhedo e merecem o devido reconhecimento.

Referências:

FUNARI, Pedro Paulo e NOELLI, Francisco. Pré-História do Brasil; As origens do homem brasileiro; O Brasil antes de Cabral; Descobertas arqueológicas recentes. São Paulo: Contexto, 2002.

WICHERS, Camila A. de Moraes (org.). Mosaico Paulista: guia do patrimônio arqueológico do estado de São Paulo. São Paulo: Zanettini Arqueologia, 2010.

Imagem: Aquarela de José de Castro Mendes, Pouso de Tropeiro da Rocinha.

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