Entrevista – Tribuna de Vinhedo – 23/08/2018

1 – Está em trâmite, na Câmara, o projeto do Plano de Mobilidade Urbana. Inclusive, ocorreram duas audiências para debate do tema. Você já se inteirou do texto? Qual sua análise a respeito?

Mesmo bastante afastado, acompanho, em linhas gerais, algumas questões que estão em debate na cidade. Pelo que pude perceber, houve um esforço importante da Secretaria do Meio Ambiente para que a cidade tenha um Plano de Mobilidade. No entanto, o texto apresentado está longe de atender às necessidades do município e faltou envolver e empolgar a população para um tema tão importante. Carece também de subsídios técnicos que amparem algumas das propostas, bem cmo vejo contradições quando se compara com o Plano Diretor de Vinhedo. Minha opinião é que precisamos de três prioridades: resolver o problema das calçadas em toda a cidade, ter ciclovias seguras conectadas com os principais eixos e converter o transporte coletivo em algo que atraia as pessoas. Estas três medidas podem diminuir a necessidade de transportes particulares, já que hoje temos 60.000 veículos, só de vinhedenses, e neste ritmo a cidade terá muitos problemas. O Projeto de Lei construído pelo governo local continua dialogando com a lógica do urbanismo rodoviarista, que privilegia veículos individuais e que concebe os espaços públicos, ruas e avenidas somente como ponto de passagem. Cidades saudáveis e sustentáveis precisam integrar seus cidadãos.  O que mais polui o processo de construção deste Plano é uma lógica especulativa que vê a cidade como um conjunto de oportunidade de negócios. Desenvolvimento não pode ser visto somente sob esta ótica.

2 – Recentemente, você palestrou no evento “Café com Diálogo”, abordando o contexto histórico e o futuro do Município. Quais são, a seu ver, aspectos essenciais que devem ser debatidos neste momento para que o desenvolvimento local seja sustentável?

Naquele diálogo tentei conectar as origens de nossa cidade às perspectivas para o futuro. Se não conhecermos de onde viemos e quem somos, há uma grande chance de nos perdermos nesta jornada. O filósofo romano Sêneca dizia, com sabedoria, que os ventos não sopram a favor de um navegante que não sabe para onde quer ir. Se não tivermos firmeza sobre qual cidade queremos, estaremos vulneráveis a ataques especulativos e os interesses privados irão se sobrepor aos interesses do conjunto da população. Pelos dados do cadastro municipal, a população local já supera 80.000 habitantes. Este, por sinal, é o ponto limite que ambientalistas e estudiosos sérios sempre apontaram, como a capacidade máxima de fornecimento de água que temos. Eis um desafio absolutamente fundamental: já temos, potencialmente – com o que se pode construir em Vinhedo – considerando o atual Plano Diretor, um colapso do abastecimento à vista. Mal começou o período de estiagem e o município já passa por dificuldades. Dependemos de cidades vizinhas, só temos a soberania de 50% da água que utilizamos e para reverter este quadro é preciso aumentar a produção e a reserva estratégica. Para isto, será necessário recuperar as nascentes, diminuir o desperdício, plantar ao menos 3 milhões de árvores, cuidar da qualidade dos mananciais (estudos recentes indicam que existem metais pesados, agrotóxicos e outros contaminantes que levantam sinal de alerta). A sustentabilidade precisa conjugar meio ambiente, desenvolvimento econômico e justiça social e se este tripé não estiver em sintonia, a cidade fica “manca”. As demandas sociais estão se ampliando e diversos serviços públicos estão sendo precarizados. A dívida pública já está chegando na casa dos 150 milhões, praticamente um terço da nossa arrecadação anual.

3 – Quais foram os principais pontos debatidos no evento?

A partir da comemoração dos 70 anos da fundação da cidade, procuramos refletir sobre quais são os principais desafios para que tenhamos uma “casa comum” que seja realmente de todos os seus cidadãos. Refletimos a respeito de como o que temos hoje é fruto de um longo processo histórico. Aqui já tivemos aldeias indígenas, pousos com roças de milho e mandioca, fazendas de açúcar, café e uva, até chegarmos ao formato atual. Esta construção é fruto de um sacrifício e luta coletiva de muitos séculos. Nós temos uma enorme responsabilidade em deixar uma cidade justa, democrática e sustentável para as próximas gerações. As cidades não estão paradas no tempo e por isso é necessário compreender os complexos processos e os atores sociais que decidem sobre a política urbana. É preciso desvendar a verdadeira vocação da cidade e lutar para que interesses obscuros não comprometam nosso futuro.

4 – A revisão do Plano Diretor precisa encontrar um ponto de equilíbrio que permita o desenvolvimento do Município e, ao mesmo tempo, garanta a preservação de recursos e a sustentabilidade. A seu ver, como se atingir esse objetivo?

Primeiro é preciso reconhecer que a decisão sobre o planejamento estratégico da cidade, expresso no Plano Diretor, não é um debate meramente técnico. Ela é acima de tudo política, no sentido nobre da palavra. Isso significa que existem mais de um caminho a ser percorrido e, provavelmente, cada um deles terá uma justificativa técnica. É fato que Vinhedo não possui nem histórico e nem infraestrutura para ser uma metrópole. É preciso olhar para o meio ambiente como um bem comum. Existem caminhos para o desenvolvimento que podem muito bem aproveitar os potenciais da cidade, gerando emprego e renda, sem arrasar com os recursos naturais já escassos. Podemos ser um centro de produção de conhecimento, de atração de empresas de tecnologia de ponta, por exemplo. É possível também ver o turismo e a agricultura familiar, dois setores que praticamente não contam com o apoio do governo, como uma importante fonte de receitas.

5 – Você se encontra licenciado do mandato, em tratamento de saúde. Quais foram as etapas já preenchidas deste processo e quais os próximos passos? Há uma previsão de retomada do mandato?

O câncer é uma doença muito perversa e a medicina ainda não possui instrumentos que permitam atuar no seu controle com previsibilidade. Cada caso é um caso. O meu trata-se de um adenocarcinoma metastático, que é bastante agressivo, especialmente quando surge em idades como a minha. O que é possível afirmar é que consegui vencer as primeiras batalhas, tirando tumores do intestino e do fígado e tendo respostas positivas ao tratamento. Evidentemente não se vence grandes batalhas sozinho. Acredito nisso para todas as esferas da vida. Minha família e amigos têm dado um suporte que é incalculável e na cidade o clima é de grande solidariedade, o que tem contribuído decisivamente para que eu mantenha a fé e a esperança. Estou fazendo todo o possível para superar este enorme desafio, recorrendo às técnicas da medicina tradicional, mas também às contribuições de outras áreas do conhecimento tidas como “alternativas”. Este ano não voltarei para a Câmara, farei agora uma nova bateria de sessões de quimioterapia e passarei por mais uma cirurgia em seguida, a da reversão da ileostomia. Ai, em seguida, avaliarei com os médicos o melhor caminho.

6 – Mesmo afastado das atividades da Câmara, você tem se preocupado em contribuir com os debates que estão em curso e são importantes para o futuro de Vinhedo. Há outros eventos ou atividades programadas?

O debate do Plano Diretor é uma espécie de questão de honra, já que sempre atuei nas pautas do planejamento urbano e do “direito à cidade”. Não tenho atuado em outras questões e mesmo nesta tem sido só muito pontualmente. Pretendo fazer algumas contribuições, apontando algumas propostas, indicando eventuais caminhos e talvez use as redes sociais para isso. Neste momento também estou estudando a possibilidade de apresentar um projeto de lei de iniciativa popular que tem relação com este debate estratégico.

7 – Deixe uma mensagem à população.

Gostaria de deixar uma frase de uma urbanista muito importante, a Jane Jacobs, que usei no final do Café com Diálogo e expressa bastante o momento que vivemos em nossa cidade: “As cidades têm condições de oferecer algo a todos apenas porque, e apenas quando, são criadas por todos”. Forte abraço!

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