Nossa casa comum faz aniversário.

A data do “nascimento” da nossa cidade é uma das questões históricas que abordo no livro “Vinhedo: das aldeias indígenas aos condomínios fechados”. Os emancipadores do município resolveram estabelecer como a data da fundação, 02 de abril de 1949 – a posse do primeiro prefeito e dos primeiros vereadores.

Datas diversas, no entanto, poderiam ter sido escolhidas, como ocorre em outras cidades que fixaram seus “nascimentos” a partir de fatos distintos como o estabelecimento do povoado, a fundação da freguesia, a chegada de famílias colonizadoras ou da emancipação político-administrativa.

A minha formação acadêmica e as experiências profissionais e políticas me inclinam a ter duas posturas diante de datas comemorativas como esta dos 70 anos de Vinhedo. A primeira é entender o contexto e os processos sociais e históricos. A segunda é usar a oportunidade para reflexões sobre o presente e o futuro. O artigo é um convite para pensarmos este aniversário estrategicamente.

Vinhedo chega a 2019 com uma economia diversificada e pujante. O Produto Interno Bruto (PIB) se aproxima dos R$ 8.000.000.000,00 (Oito Bilhões de Reais) e a arrecadação da prefeitura é da ordem de R$ 500.000.000,00 (Meio Bilhão de Reais). Isso coloca a cidade como o 57º PIB e a 187ª receita per capita, entre os 5.570 municípios existentes no país.

A ocupação dos 82 km² de território é dispersa, diversificada e predominantemente urbana. Os mais de 77.000 habitantes que o ocupam estão divididos entre cerca de 40% que nasceram no município e 60% que vieram de outras localidades (migrantes). Grosso modo, um terço vive na região da Capela, um terço nos condomínios fechados e o terço restante nos demais bairros abertos.

Como carro-chefe, o setor de serviços expressa dois terços da produção da cidade e a indústria representa o outro terço. A agricultura é responsável por menos de 0,5% (meio por cento) de tudo o que produzimos. Os pés de uva – símbolo do município – com muita generosidade na contagem dos dados reais – não chegam a 50.000 (cinquenta mil). Isto, obviamente, nem sempre foi assim.

O que conhecemos hoje como Vinhedo é fruto de um processo histórico de séculos. Os fatores que incidiram para formar nosso município iniciaram-se antes mesmo do processo colonial. Por aqui habitavam tribos indígenas que abriram os primeiros clarões na gigantesca Floresta Estacional Semidecidual, para formar suas aldeias. Foram eles também que abriram a primeira estrada (na época trilha) que ligava o litoral ao planalto central. O antigo Caminho dos Goiases é o que reconhecemos hoje como a Estrada da Boiada.

De 1722 em diante, o Caminho dos Goiases passou a ser rota dos bandeirantes. As aldeias passaram a ser pontos de parada para tropeiros, viajantes, aventureiros, posseiros e de toda gente que buscava o interior do Brasil. Estes pousos possibilitaram o surgimento de uma economia rudimentar de subsistência e a fixação dos primeiros moradores.

Vinhedo, da mesma forma que Campinas e Jundiai, já tinha um povoamento formado no século XVIII. Em 1778, 333 pessoas viviam por aqui em 57 casas, o que era mais do que suficiente para se fundar uma cidade colonial. Campinas foi fundada em 1774 com 188 habitantes e 50 casas, enquanto Jundiaí, em 1655, contava com 309 habitantes e 65 casas. Em razão de diversos fatores, a fundação da cidade só ocorreu, como sabemos, no século XX.


Registro feito pelo império português dos moradores de Rocinha residentes no ano de 1776. Original do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Desde então, Vinhedo fez parte de cinco sesmarias que foram distribuídas pelo império português a arrendatários de confiança. Essas sesmarias se converteram em pontos comerciais e principalmente em grandes fazendas de açúcar (atividade econômica predominante no início do século XIX e que praticamente não é mencionada pela história oficial) e depois de café. A força de trabalho dos escravos africanos e, na sequência, dos imigrantes europeus, garantia a construção desta riqueza.

Um conjunto de variáveis negativas para os cafeicultores fez muito deles “quebrarem”: a crise da República Velha, a queda da bolsa de Nova Iorque, a Primeira Guerra Mundial e a terrível geada de 1918. No início do século XX, nosso território foi ocupado por propriedades menores que cultivavam frutas, especialmente, a uva, que chegou a superar na fase áurea os 5.000.000 (cinco milhões) de pés.

Um ímpeto mais modernizante começou a ser arquitetado nas décadas seguintes, com a ampliação do comércio, dos serviços e da industrialização. Esse processo se consolidou nos anos 70 do século passado com a instalação dos primeiros condomínios (Marambaia, São Joaquim e Vista Alegre). A Vinhedo contemporânea foi arquitetada desde essa década até a publicação do atual Plano Diretor, em 17 de janeiro de 2007.

Portanto, essa casa comum, que convivemos e compartilhamos, cujo nome nos últimos 70 anos é Vinhedo, representa muito mais do que um conjunto de ruas, próprios públicos e edificações. Ela é expressão de múltiplos e complexos processos políticos, econômicos e sociais que não puderam ser retratados nesse artigo e que procuro reconhecer no livro já publicado.

O espaço comum foi construído com lutas, com trabalho e muito sacrifício de pessoas de diferentes etnias, que vieram de muito longe ou que aqui nasceram. Por isso, é preciso zelar para que seu futuro seja protegido. O direito à cidade é de todos os seus cidadãos, pobres, de classe média ou ricos. Os mais de 70.000 que aqui habitam, ou mesmo os que ajudam a construir de outras formas, trabalhando, estudando ou visitando seus familiares merecem usufruir todos os potenciais do município.

Evolução da população de Vinhedo em 100 anos.

Ocorre que Vinhedo ainda busca encontrar sua vocação, neste momento debate a renovação de seu Plano Diretor e algumas perguntas devem ser suscitadas. Com 18.732 edificações e 8.659 lotes vazios a cidade deve continuar aprovando novos loteamentos sistematicamente? Com serviços sociais já defasados, falta de água especialmente nos bairros populares e problemas na mobilidade urbana, não é o momento de se concentrar nas soluções desses desafios?

Nossa cidade tem um potencial gigantesco e ainda busca sua vocação. Com características muito peculiares, sua riqueza pode ser revertida para se fazer dela uma referência em políticas públicas. Esta não é somente uma questão de governo. Enquanto a maior parte das pessoas estiver em suas casas, sem se preocupar com o que passa do lado de fora, sem se empoderar de seus direitos e deveres, as soluções estarão mais distantes.

É o momento de cuidar da nossa casa comum, que tem jardins, praças, água, bichinhos, parques, ruas que são de todos. Tem também os bens imateriais, o patrimônio histórico e cultural, as tradições italianas, suíças, portuguesas, espanholas, alemãs, indígenas, negras e tantas outras que constroem o nosso imaginário coletivo. Vinhedo já tem muitos muros. Agora precisa centrar esforços na edificação de pontes entre as pessoas.

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O Livro “Vinhedo: das aldeias indígenas aos condomínios fechados” pode ser encontrado em Vinhedo na Livri https://www.facebook.com/livri.vinhedo/ e na Alimente https://www.facebook.com/alimente.eco/

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