A Arte do Insulto x O Insulto à Arte

Nas segundas-feiras, sempre que possível, assisto na Rede Bandeirantes de Televisão, o programa Custe o Que Custar (CQC), uma das poucas alternativas de programas inteligentes que passam na TV, em sinal aberto.

Já foi mais autêntico e menos comercial, mas inegavelmente ainda tem a virtude de produzir, a partir do humor, reflexões sobre a realidade política brasileira, bem como sobre temas do cotidiano. Protagonista de um dos melhores quadros do Programa, o “Proteste Já”, Rafinha Bastos esteve em Vinhedo no último final de semana para apresentar o espetáculo “A Arte do Insulto”.

Não pude ver – em virtude de compromissos profissionais – mas soube que as cerca de 1600 pessoas que, em duas apresentações do ator, lotaram as dependências do Teatro Municipal no último dia 18, aplaudiram efusivamente seu desempenho no palco.

O estilo de comédia utilizada pelo ator, chamado de “stand up comedy”, um dos mais difíceis de fazer, teve o mérito de dialogar, a partir de um texto interativo, com os acontecimentos políticos da cidade. Além de “insultar” os problemas éticos ocorridos com o atual Prefeito, ele fez o mesmo com a platéia que, surpreendida com a ousadia do mesmo, foi cobrada pelo resultado eleitoral de 2008.

Artisticamente, Rafinha Bastos, falou aquilo que muitos gostariam de dizer, e por isso foi aplaudido de pé. O acesso à arte, à informação e à cultura é uma poderosa forma de elevar a consciência na sociedade e de ampliar o desenvolvimento crítico e criativo das pessoas. Não é outra a razão que leva governos de natureza autoritária e populista a confrontar-se com os agentes culturais.

Em Vinhedo, vivemos uma situação em que a manifestação cultural encontra barreiras para se desenvolver. Pela riqueza cultural, pelas características da cidade e pelas dezenas de talentos que aqui surgiram, temos condições de ser uma referência nacional em produção de bens artísticos e culturais. Cultura é um direito, não um favor. Tampouco pode ser peça secundária de um governo.

Revendo o Programa de Governo apresentado nas eleições de 2008, percebe-se que a coalizão liderada pelo atual Prefeito não escondeu da cidade qual é sua concepção de cultura. Na página 62, dizem que “Milton Serafim sabe que as ações e obras que promovem a cultura, trazem visitantes e indústrias para Vinhedo”.

É um insulto não só à arte e à cultura afirmar isso, mas também a inteligência dos que lêem. Qual seria a relação que tem a produção cultural com trazer mais indústrias para Vinhedo? O ímpeto “desenvolvimentista” do atual governo não consegue ter a sensibilidade de aproveitar o potencial para aquilo que já existe de melhor na cidade e tem dificuldade de entender que, parafraseando o poeta, não só de obras e loteamentos vive o homem.

Para enfrentar as injustiças e desigualdades sociais presentes em nossa cidade, é preciso um esforço para democratizar o acesso à cultura e também ter uma política cultural que apóie as produções locais. O próprio Teatro Municipal tem o mérito de promover boas peças, mas que, em geral, excluem parcela significativa da população, pelos preços elevados.

As Oficinas Culturais e o FESTEVI são patrimônios da cidade, mas podem ter melhoras significativas. Também será necessário resolver a forma como o poder público trata os agentes culturais, responsáveis por conduzir essas atividades.

Atores e atrizes, que são muitos na cidade, quando contratados recebem valores irrisórios. No caso das oficinas há um dilema a ser resolvido: ou se contrata os melhores, a partir de uma avaliação técnica, feita, por exemplo, pelo Conselho Municipal de Cultura ou se faz um Concurso Público.

O que não é possível admitir é o clientelismo e a politicagem com esta área tão importante para a cidade. Já no início do governo bons profissionais da cultura foram demitidos, muitos deles notadamente reconhecidos por suas qualidades, mas tinham um defeito: não apoiaram o atual Prefeito.

Este foi o caso, por exemplo, do professor de Capoeira, Daniel, demitido arbitrariamente por padecer do mal de não ter apoiado Milton Serafim. Nem um abaixo-assinado com ampla adesão de seus alunos sensibilizou o comando do Governo. Daniel, um dos melhores conhecedores da arte da Capoeira que temos, teve a sorte de não ter sido “insultado” este final de semana no Teatro Municipal.

Entre o Insulto à Arte e a Arte do Insulto, fico com Rafinha Bastos.

Vinhedo, 24 de abril de 2009.

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